Por *Regina Navarro Lins
Os romanos, há dois mil anos, desenvolveram a ideia de prudência, por
isso lutavam contra o amor, visando evitar o sofrimento. Acreditavam
que o homem prudente afasta seus pensamentos para longe do amor, sabendo
que o amor é uma doença.
O amor devia ser cuidadosamente evitado, da mesma forma que muitos
fazem hoje. O psicólogo italiano Aldo Carotenuto faz interessantes
considerações sobre o tema. Ele acredita que está ao alcance de todos a
possibilidade de fazer mal ao outro mesmo amando-o.
Não é um fenômeno fácil de se explicar; talvez a razão deva ser
buscada no fato de que, de qualquer maneira, nós nos sentimos
arrebatados e violados; ninguém pode impunemente conquistar a nossa
dimensão interna, assim como acontece nessa experiência.
E então pode ocorrer que a necessidade, talvez inconsciente, de
violar o outro e de fazer-lhe mal seja a sutil vingança de quem se sente
completamente possuído. Eis por que o amor é “coisa cheia de medo”, eis
por que ao lado dos sentimentos mais sublimes experimentamos também
temor.
Quando amamos, somos olhados por dentro e isso é acompanhado de uma
sensação de vergonha. Tornar manifesta a própria interioridade induz à
vergonha, porque na nossa cultura isso equivale a uma admissão de
fraqueza.
Existem pessoas que, mesmo que amem intensamente, dificilmente
conseguem manifestar o próprio sentimento, porque temem correr algum
risco. Geralmente, quando nos colocamos a nu, todos os nossos anseios se
concentram em torno do temor da rejeição. Revelar-se significa, no
fundo, conceder parte da própria liberdade e das “partes” de si mesmos.
A área dos afetos é a mais difícil de viver, e o problema que
principalmente nos inquieta está no envolvimento amoroso. Estar
envolvido com alguém significa tomar parte na vida interior de outra
pessoa, porém justamente uma experiência desse tipo, remota, talvez
esquecida, mas que deixou a marca, nos mantém como “vacinados”, nos
torna de qualquer modo refratários a nos tornar disponíveis.
Uma espécie de imprinting emotivo nos impeliu a viver sob o signo do
pânico todas as experiências afetivas sucessivas, e nos ensinou para
sempre que a única possibilidade de salvação se encontra – exatamente
como da primeira vez – na obtenção de uma “autonomia psicológica”.
A necessidade do outro, e também o medo de amar, diminui quando se desenvolve em cada um a capacidade de ficar bem sozinho.
*Psicanalista e escritora
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