sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A BRAGANHA

A BRAGANHA
Conto

Por *José de Castro
– Pois lhe digo, compadre, mulezinha vale muito mais do que você pensa.
– Penso assim, não. Vaquinha tem mais valor.
– Duas malhadas não pagam mulezinha.
– E o leite, compadre?

Futuca o nariz e, de piparote, arremessa longe a bolinha.

– Pensa que mulezinha não dá leite?
– De litro, não.
Levanta do tamborete e vai até o embornal pegar o fumo. Naco grande, cortado a canivete de folha.

– Não conhece mulezinha. Mais de litro quando menino não suga os peito. Carece tirar com bombinha. Não encaroçar.
– Convence, não. Vaquinha dá carne.
Espicaça o fumo na palma da mão. Cerimônia lenta e cuidadosa.

– Depois de morta. Vaquinha só dá carne quando vira gado defunto. Mulezinha, não.
A lâmina gasta do canivete alisa a palha. Despeja o fumo.

– Vaquinha dá bezerro.
– Mulezinha dá fio hominho.
Enrola a palha. Na beirada, passa a língua saburrosa. Sela o pito.

– A malhada e um saco de feijão. Quiser...
– Mais valor. Tem negócio, não.
Vai até o fogão de barro branco. Assopra o tição, avivando a brasa na ponta. Fumaça pelo nariz e pela boca. Cospe um fiapo de fumo.

– A malhada, um saco de feijão e...
– E?
– … e o tordilho.
– Pouco. Mulezinha vale mais.
A barba rala espalhada no queixo pontudo. Bigode, nenhum.

– De ouro essa mulezinha.
– Mulezinha é prendada. Faz lavoura, capina, campeia, cozinha, lava, e passa a brasa. E tem dois dentes de ouro. Bem aqui, ó.
Aponta os dois caninos vampirescos, amarelos por conta do fumo.

– Ver a mulezinha.
– Depois de preço acertado.
– Dou mais a carabina. Dois canos, azeitada.
– Acrescenta muito, não.
– Com trinta cartuchos.
Cospe no chão e esfrega com o pé descalço a pequena mancha úmida e raiada.

– Mulezinha é caça grossa. Qualquer tareco vou aceitando, não.
– Dou minha sanfona também.
– Toco música, não.
– Difícil negociar. Vender ou não vender mulezinha?
– Depende melhorar a oferenda.
Reacende o pito no tição. A brasa queima um lado mais que o outro. Baforada comprida, a palha entre o polegar e o indicador.

– Findar amolação: dou a papo amarelo. Garrucha de estimação. Foi do avô.
– É muita arma de fogo. Melhorando. Mulezinha é fogo!
– Oferto mais não.
– Achando não haver negócio.
– Tá brincando.
Bate a cinza do pito na lata de querosene vazia. Descansa um dos pés no joelho e coça o comichão que lateja no vão dos dedos.

– É como lhe digo, compadre. Cafuné de mulezinha é que nem cosquinha de bicho-de-pé. Se quiser mulezinha, bote coisa de mais apreço.
– Só se for comadre. E comadre, dou não.
– Bem que topava uma comparação. Quantos anos têm comadre?
Solta a fumaça preguiçosa a desenhar arabescos pelo ar. Chupa o cigarro de palha lentamente. A pressa é inimiga da negociação.

*José de Castro, jornalista, escritor, poeta. Autor de livros infantis. Membro da SPVA/RN e da UBE/RN. Contato: josedecastro9@gmail.com
Postado por: Marcelo Abdon

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