sexta-feira, 15 de maio de 2015

Tudo vira poesia

Por *José de Castro
De tudo se faz poesia.
Até mesmo
de uma inspiração vazia.
Em tudo o que existe
habita a poesia.
Mesmo num coração desolado
e triste.

Maré cheia, maré vazante,
grão de areia peixe estrela concha
e baleia e águia e montanha.
Tudo vira poesia.
Vida e morte, sol e lua,
azar e sorte, roça e rua.
Há poesia em todos os quadrantes,
em todas as dimensões do universo.
Há muita poesia nos rios,
todos esses que correm para o mar
e nos deixam a ver navios,
entre águas de hoje que tanto correm
e todas aquelas que ainda haverão de correr.
Tudo vira poesia.
Uma lua redonda e amarela,
principalmente.
Lá de cima, luariza a moça nua
que a espia da janela.
(isso são versos ou seria uma pintura de Monet?)
Mas e se a lua for magrinha?
Ficará sem versos, triste e raquítica?
Qual o quê!
Lua magra também é bonita de se ver.
Parece uma unha, um risco,
um rabisco de sonho no céu.
Poesia é feito mulher bonita,
bem melhor que rapadura.
Tem doçura de mel
é anjo e é musa caída do céu.
Mas pode ter um travo da amargura,
que nem só alegrias desfilam na passarela da vida.
Até mesmo a tristeza
pode se vestir de alegria.
E o verso pode virar no avesso
a sisuda melancolia.
E a noite, pode ser poesia?
Enfeitada de estrelas, a noite mais escura
vira cristal, translúcido verso
que se ilumina e inebria.
Tudo o que é pequeno
desimportante, miúdo e insignificante
pode se transformar em poesia.
Uma ferradura velha
um trinco enferrujado
uma porteira de roça
um vão de rio, uma canoa
um grão de café
um sapo na lagoa, um tatu
e uma muriçoca,
um pendão de milho
uma faca de cozinha
uma escada quebrada
uma panela de ferro
um jardim abandonado
uma boneca de louça
um penico de ágate
um laço de fita, um guarda-chuva
uma andorinha, uma flor, um cão
um fogão a lenha, um pote de barro
uma gaiola e um gato
uma fotografia amarelecida pelo tempo
um botão de madrepérola
uma borboleta amarela.
Tudo tem por trás uma história
tudo isso nos ilumina por dentro.
As pequenas coisas me fazem
pensar grande.
Quão vasto é o mundo!
Esse pequeno grande mundo,
inteiro, cabe todo dentro de um só poema.

Hoje é dia de viver poesia.
Aquela poesia que cabe no bolso de uma criança,
que passa no fundo de uma agulha,
que me acende um vaga-lume nos olhos,
e incandeia e brilha.

*José de Castro, jornalista, escritor, poeta. Mestre em Tecnologia da Educação. Autor de livros infantis (A marreca de Rebeca, O mundo em minhas mãos, Poemares, Poetrix, Dicionário Engraçado e A cozinha da Maria Farinha). Contato: josedecastro9@gmail.com

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