domingo, 24 de maio de 2015

A Princesa Dara e o Rei Valente

Por *Cláudia Santa Rosa
Há milhares de anos, do outro lado do planeta, no Reino dos Sonhos, viveu a princesa Dara. De olhos escuros e puxados nos cantos, boca carnuda e sorriso marcante, de tão clara a sua pele destacava os cabelos escuros, longos e lisos. O porte era de uma rainha, mas ela jamais deixou de ser princesa.

Dara era uma princesa pobre. Não nasceu em berço de ouro. Os pais nunca possuíram mais do que uma folha de obrigações. Abriu-se para a vida num bairro simples de uma pequenina cidade oriental. Cresceu sem luxos e aprendendo a amar o pouco que tinha, o bom, o belo, o justo, a verdade, o respeito, o conhecimento, a força do seu trabalho, o cultivo de flores.
Dara não era rainha, mas, desde cedo, compreendeu pelo menos três coisas: a palavra empenhada vale mais do que fardos de papéis escritos; todo trabalho é digno e que não se deve machucar as outras pessoas, pelo menos quando for possível evitar.
Em seu mundo fantástico, Dara projetava-se para frente e vivia a construir lindos castelos. Sem súditos, nem exércitos, enfrentou batalhas das mais sangrentas, encontrou o seu príncipe dos sonhos, amou, foi amada, casou, teve muitos filhos, foi feliz, muito feliz, eternamente feliz.
Mas, enquanto isso, distante do Reino dos Sonhos, num ambiente de realidade, Dara foi surpreendida pelo Rei Valente:
– Boa noite, princesa linda! Eu sou o Rei Valente.
– Boa noite, Rei Valente! Eu sou Dara.
– Eu sei! Faz milhares de anos que eu a admiro. Você é brilhante! Podemos conversar?
– Claro que sim! Respondeu Dara, sem se dar conta das verdadeiras intenções do Rei conquistador.
De tão determinado a conquistá-la, o Rei Valente conseguiu a princesinha meio imatura, sem fazer tantos esforços. Era um homem alto, forte, de pele clara, olhos azuis, cabelos longos, um colecionador atraente. Ainda chegaram a ser felizes, é verdade! Dara apaixonou-se, perdidamente, e se fez dependente e submissa tanto quanto era o Rei da sua coroa, símbolo do poder de um reino do qual também era sultão.
Foi uma paixão arrebatadora, mas passado um curto tempo, talvez para ele tenha sido uma eternidade, Dara continuava com o seu amor tão vivo quanto no começo. O Rei não demonstrava mais a menor empolgação, até pelo fato do seu salão real viver sempre lotado. Destinava contado tempo para Dara o amar. Ela amava pelos dois e de tão visível, sabia que o fim era próximo.
Como se não bastasse, a Princesa Dara também sofria com as atitudes pouco elegantes do Rei Valente, no trato com as mulheres do palácio real. Sem a menor preocupação de magoar Dara, a mulher que o amava, ele ofertava elogios aos corpos seminus que se exibiam sem pudor à sua frente. Por mais que prometesse que o próximo ato seria diferente, quando estava livre nos salões do seu palácio, o Rei não cumpria.
Do alto do poder que era detentor, o Rei Valente sempre estava correto. Ele era incapaz de voltar atrás e corrigir um ato, jamais desfazia, mesmo que fosse para agradar a princesa, afinal, os desejos do Rei estavam em primeiro, segundo e terceiro lugar. Ele tratava Dara de um jeito grosseiro:
– Nenhuma mulher jamais fez as exigências que você faz.
Em outras palavras, ele dizia:
– Se princesa não é rainha, a você o mesmo lugar das outras, de súdita.
Dara viveu somente pouco mais de quatro décadas, uma eternidade nos tempos que o calendário contava para trás. Morreu sem sentir o gosto de ser rainha, aquela do seu Reino dos Sonhos, mas saiu de cena, sabendo o que é amar.
*Professora, especialista em Psicopedagogia, Mestre e Doutora em Educação. Diretora Executiva do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE) e Coordenadora do “Esquina do Conhecimento, projeto pedagógico da Escola Estadual Manoel Dantas. É articulista de temas relativos à Educação e no ano de 2014 passou a publicar, também, minicontos de amor, crônicas e poemas que são tentativas de incursão pelo universo do texto literário. (educadora@claudiasantarosa.com)

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