Por *Alex Medeiros
Talvez alguns dos problemas mais acentuados da sociedade contemporânea sejam os de relacionamento. Um convite à reflexão neste natal. Fim de ano é momento de estar diante das pessoas – família, amigos, companheiros (as), deparando-se com a real situação de nossos vínculos. Hoje, se vive muitas relações, assim como deve ser para ser humano, ser social. Porém, há relações demais e vínculos de menos.
Vivemos um momento de incertezas quanto aos valores, quanto aos papeis, que se reflete nas relações de toda ordem. Vivemos o medo do vínculo, o medo de que não haja o vínculo, o medo de ficar sós, o medo de nos perder de nós. Nas relações a dois, observa-se as pessoas acuadas, cheias de marcas de vivências anteriores sem conteúdo, impedidas, no íntimo, de recomeçarem plenamente, seja com o atual parceiro ou com o próximo. Com dificuldades de colocarem ponto final em relações que já não mais edificam ou de iniciar relacionamentos verdadeiros. Com necessidade de subjugar o outro para terem a “certeza” de que são “correspondidos” – mais se assemelham às relações de poder. Com tantas exigências que não há quem possa ocupar um lugar. Com a obrigação de preencher, no outro, lacunas emocionais, financeiras, sociais… Função demasiadamente pesada para se atribuir a alguém, que, no final das contas, queria somente amar e ser amado. Crianças emocionais.
“Um bom sinal de imaturidade emocional é estar sempre se promovendo, provocando ciúmes e gostando de contar para o parceiro o sucesso que faz. Pessoas mais amadurecidas são parceiros sentimentais mais fáceis: não precisam se reassegurar estimulando a insegurança de seus parceiros. Pessoas com mais maturidade emocional conseguem se imaginar sozinhas: têm menos medo de uma eventual ruptura e se estressam menos no amor”, corrobora o psicanalista Flávio Gikovate. Para ele, no amor, o estresse é menor naqueles casais que se empenham em gerar um clima de paz, harmonia, estabilidade e confiança no convívio íntimo.
Sobre isso, o estudioso alemão das relações familiares, Bert Hellinger, observa: “em muitos relacionamentos, existe a ideia do homem de que ele tem a mulher. E existe a ideia da mulher de que ela tem o homem. Mas nem o homem tem a mulher, nem a mulher tem o homem. Os dois são unidos através do instinto, através do amor, através da esperança. Esse instinto e essa esperança têm uma meta oculta. Através deles, o homem e a mulher são tomados a serviço. Depois de um tempo, o homem percebe que não tem a mulher, e a mulher percebe que não tem o homem. Agora ambos se soltam um pouco do outro e nasce, entre eles, ao mesmo tempo, um espaço e um pedaço de liberdade. Quando a reivindicação pára: ‘Eu tenho você, e eu preciso ter você’, cada um deles tem a chance de se aproximar do outro de uma forma que não era possível antes”.
Ambos os pensadores concordam, em suas diferentes versões, que quem não tem a si mesmo, não é capaz de ter ninguém, ainda que esteja acompanhado ou rodeado de pessoas.
*Jornalista
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