domingo, 16 de novembro de 2014

Amor, muito mais do que uma promessa

Ilustração de Audrey Kawasaki
Por *Cláudia Santa Rosa
Não custou muito para Clara se dar conta de que havia encontrado um amor para muitas vidas. Desde então, impossível não mudar o seu íntimo para vivê-lo intensamente. Pôs-se a esperar. Uma espera sem fim! Um minuto parecia um século. Clara descobriu que a espera pode ser suportável quando é possível enquadrar os sonhos na janela da vida. Ninguém limita os sentimentos, isso ela já sabia.

O dia mal amanhece e já traz consigo uma promessa: Clara sente uma necessidade quase enlouquecedora de sair do plano dos sonhos, das divagações eternas, para viver uma realidade que revira os seus pensamentos, evocando esperança. Entre suspiros, sobressaltos da espera, por um sinal que seja de presença. O tempo parece cruel, as distâncias somente encurtadas por doses de afeto, os limites postos para serem ultrapassados, as regras para serem quebradas. O gosto do proibido não seria exatamente um veneno, tampouco um estimulante. Ela pensa: - O que faz o meu amor? Será que se lembra de mim ou será que já se perdeu num mundo infinito de rostos turvos? Qual será o lugar que eu ocupo no seu coração?
Lucas passou a surpreender Clara com a sua presença. Queria conquistá-la. Ele queria aquela mulher completamente apaixonada. Os olhares de cumplicidade, o carinho, o afeto, as atenções se redobravam. Nem tudo era perfeito, mas parecia existir desejo de que tudo desse certo. As chegadas inesperadas, os telefonemas, os gestos delicados, o sorriso de menino sapeca na boca de um homem maduro, tudo era encantador. Em segredo, Clara guardava fotografias do seu amor, como se quisesse, por renovados instantes, reavivar o que já era, para sempre, presença constante diante de si. Definitivamente, aquele homem a fascinava com seus gestos obstinados, atitudes destemidas e palavras amorosas que lhe tocavam o coração.
Tensa, Clara entrou pela primeira vez no carro de Lucas. De tão apreensiva, não foram muito longe. Mãos geladas, pernas trêmulas e cerradas, ela implorou que retornassem. Duas semanas depois, num intervalo alimentado por instigantes conversas, um encontro apressado, mas decisivo. Nunca mais Clara seria a mesma. Naquele começo de noite, as mãos de Lucas teimavam em escorrer pelo seu corpo quente, os beijos eram de apaixonados, os abraços apertados passavam segurança e verdade. Jamais Clara esqueceria aquele cheiro único que exalava de Lucas e a envolvia, sem pedir licença. Os toques daquelas mãos firmes e másculas eram completamente despudorados. Sim, seria impossível esquecer tamanho prazer que encobria aquele momento. Somente uma palavra era capaz de definir o sentimento de Clara: felicidade.
Aquele amor grandioso foi aumentando e Lucas seguiu regando-o, como se tivesse o poder dos bruxos. Clara passa a viver uma saborosa desordem emocional e se deixa alimentar para desabrochar um jardim inteiro, todos os dias. Clara não tem controle sobre o seu coração, que transborda de tanto amor.
A despeito da aridez da vida, certas horas Clara e Lucas são passarinhos, um é completamente do outro, misturam as suas respirações ofegantes, como se o mundo fosse apenas deles. Apagam-se as luzes, fecham-se as cortinas para uma perfeita exaltação à felicidade. O amor existe!

*Professora, especialista em Psicopedagogia, Mestre e Doutora em Educação.
(educadora@claudiasantarosa.com)

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